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Interviews

“Não me chame de vítima” Entevista com Dina Yafasova

Revista Eletrônica Literatura e Autoritarismo – Dossiê nº 9, Setembro de 2012 – ISSN 1679-849X

 

Por Vinicius Mariano de Carvalho

Dina Yafasova é, como ela mesma se define, cidadã do mundo e escritora em exílio. Nascida no Uzbequistão, quando esta era ainda uma República Soviética, estudou jornalismo na Universidade de Tashkent e se graduou no
ano de 1993. Foi durante muito tempo correspondente sobre a Ásia Central para muitos canais internacionais de mídia. Suas reportagens investigativas (uma delas, sobre a censura do Estado, fez parte de uma representação oficial do Congresso dos Estados Unidos em 2001) retratavam a vida diária em uma ditadura pós-soviética. Por causa disso, Dina se viu forçada a fugir, em 2001 após ter sido submetida à tortura e ameaças de morte. Ela reside atualmente em Copenhague, com sua família.

Ainda em 2001, foi honrada com o prestigiado prêmio  Hellman/Hammet, atribuído pelo Human Rights Watch, para escritores perseguidos. Em 2001 foiagraciada com o Courage in Jornalism Award, pelo Comitê de Proteção a Jornalistas dos EUA, mas optou por não tornar isso tão público na ocasião para não colocar amigos e parentes, ainda residentes em sua terra natal, em perigo. Em 2010 foi nomeada para a Reader's Digest European of the Year.

Dina teve seu debut como escritora em 2006, com o livro Diário de Sandholm (Dagbog fra Sandholm, em dinamarquês), publicado pela Gyldendal, a maior casa editorial da Escandinávia. Neste livro ela descreve sua fuga da perseguição que sofria em seu país de origem, uma terra que após a desintegração da União Soviética tornou-se uma verdadeira ditadura na qual perseguição, vigilância e ameaças de morte estavam na ordem do dia para qualquer um que ousasse criticar o regime. Dina descreve ainda sua chegada na Dinamarca, no campo de refugiados de Sandholm no dia 11 de setembro de 2011 e nos seus 173 dias atrás das redes de arame farpado do campo. Lá ela encontrou uma variada gama de refugiados vivendo em condições similares a de uma prisão enquanto aguardavam por uma decisão acerca de seu futuro. O livro se tornou imediatamente um Best Seller e um dos livros mais debatidos do ano na Dinamarca. Aclamado pela crítica, o Diário de Sandholm recebeu diversos elogios e provocou polêmica na sociedade dinamarquesa. Foi considerado um livro que abre os olhos para a situação dos refugiados.

Entrevistei Dina em uma tarde em Copenhague, em uma das mais tradicionais livrarias-café da cidade. A entrevista foi anterior à publicação de seu segundo livro, um romance documentário, “Don’t Call Me a Victim!”, de 2011, que já ganhou edições em russo, dinamarquês e inglês. O Diário de Sandholm já está em processo de tradução e será brevemente publicado em português.


Vinicius Mariano de Carvalho (VMC) - Primeiramente, diga-nos sobre suas origens, seu país, seu povo.

Dina Yafasova (DY) - Eu nasci e cresci na antiga União Soviética – um país que não existe mais, um império e uma era que já se foi e não voltará. Uma Atlântida que foi deliberadamente afundada. Um espelho quebrado e seus
cacos estão esparramados por todo o mundo. Um destes cacos sou eu. A cidade da minha infância, nas montanhas de mais de três mil metros de altitude, sob um bonito céu, é como uma ilha de em torno de mil falantes de
russo no centro da Ásia Central, no Uzbequistão, uma ponte entre o Oriente e o Ocidente e um arco cultural de mais de cem nacionalidades diferentes. Todos os habitantes – amigos e vizinhos – são de uma segunda geração de
imigrantes. Parte deles evacuados da Rússia, Polônia, Ucrânia e dos Países Bálticos no período da IIa. Guerra. Outra parte, descendentes de indivíduos exilados ou forçados a migrar durante os expurgos de Stalin no interior da Ásia. Uma terceira parte, filhos de incorrigíveis românticos que chegaram para tomar posse de terras ricas em grãos.

Em outras palavras, Eu cresci em um tipo de Babilônia, um cruzamento de culturas. Meu país tornou-se uma das sociedades mais multiculturais do mundo, com mais de 100 nacionalidades vivendo juntas. Somente na minha classe escolar nós éramos de 25 crianças de 20 nacionalidades diferentes falando russo. Pode-se dizer que nós nos tornamos cosmopolitas antes mesmo de saber o que isso significava.

VMC - Pelo que entendi, você tinha uma vida estabelecida no Uzbequistão. O que te fez migrar para a Dinamarca.

DY - Havia coisas boas na União Soviética e no Uzbequistão, mas eram sociedades totalitárias nas quais trabalhei desde a idade de 14 anos como jornalista. Mesmo com o colapso da União Soviética o Uzbequistão preservou o
velho e autoritário regime que providenciou a sobrevivência política das antigas fórmulas comunistas. È triste dizer isso, mas o Uzbequistão tem uma das mais estritas censuras no mundo. O sistema da KGB ainda existe lá, sem mudanças e sem enfraquecimento. Agindo como um “Big Brother”, o governo observa jornalistas e os cataloga em listas negras, especialmente aqueles que trabalham independentemente, enviando-os para prisões. Eu era uma desses que trabalhavam independentemente. Meu trabalho jornalístico reportava e retratava a vida diária sob uma ditadura.

Este trabalho, estas investigações, que apareceram na Dinamarca, nos Estados Unidos e na Alemanha (um deles, sobre a censura do estado foi documento de uma audiência oficial no Congresso dos EUA), estes “bons velhos rabiscos” („good old scribblings‟), nas palavras de Brodsky, deram-meum tipo de “sucesso”: o exilio. Eu fui forçada a deixar o país após ter sido submetida a tortura e ameaças a minha vida durante interrogatórios conduzidos por renomados agentes da KGB.

VMC - E após sua chegada na Dinamarca?

DY - No início do meu exílio eu fui locada no campo de refugiados na Dinamarca chamado Sandholm – um lugar que acomoda pessoas que estão a procura de proteção internacional. Por ironia do destino, minha primeira manhã
neste lugar foi no dia 11 de setembro de 2001 – o dia da explosão da xenofobia; o dia em que iniciou o declínio da política internacional acerca de refugiados porque algumas forças políticas abusaram da histeria e associaram
as palavras “refugiado” e “terrorista” como sinônimos.

VMC - Como você define Sandholm?

DY - É claro que ninguém espera o tratamento de um hotel de cinco estrelas neste tipo de campo, mas eu fiquei profundamente chocada com o que encontrei lá: pequenos e superlotados quartos, numa série de alojamentos
circulados por cercas de arame, onde pessoas traumatizadas de todas as partes do mundo estavam assentadas em isolamento grupal, esperando que suas cicatrizes mentais desaparecessem sem tratamento

Eu fiquei em Sandholm por seis meses, mas muitos permanecem lá por anos. Esta foi uma rara oportunidade para mim, como jornalista, mas muito chocante como ser humano. Sandholm é um lugar que dividiu minha vida entre um antes e um depois. Onde minha alma se encheu de tal profundidade que foi limpa de todas as lágrimas. Mas também foi neste lugar que foi meu despertar para a literatura. Foi lá que eu mudei de uma forma móvel, bem clara, porém lacônica de escritura jornalística para uma maneira solitária e distante, da investigação dos problemas sociais para a exploração do universo humano. Quando eu deixei este lugar eu tinha apenas 3 coisas comigo – três coisas para começar uma nova vida. A primeira era o cobertor que eu tinha usado no campo, a segunda era meu diário, no qual escrevi tudo o que eu vi, ouvi e experimentei lá, a terceira era meu novo status: uma cidadã do mundo.

VMC - Seu livro, Diário de Sandholm, a despeito das características de um diário – um tipo de literatura que tem como foco a pessoa que o escrever – revela mais acerca de um lado controverso da sociedade e da política
dinamarquesa no que diz respeito aos imigrantes neste país. Você poderia nos dizer quais suas motivações com este livro? Trata-se apenas de suas memórias durante seu tempo em Sandholm? Ou se trata de uma memória coletiva de todas as pessoas que estavam lá com você?


DY - Eu chamei o livro de diário porque ele foi escrito com base nos meus diários. Mas o livro por si mesmo está mais para uma prosa documental. Este livro interessará pessoas que buscam por uma combinação entre uma
interessante história de vida com uma linguagem artística.

No que diz respeito a minha motivação para escrevê-lo, quando eu escrevi este livro eu tive o sentimento que eu cumpri minha missão como jornalista. Eu trouxe à tona algo que estava sendo oculto dos olhos da sociedade. Eu dei a outras pessoas voz e oportunidade de ser ouvidas. E é claro que eu creio que escrevendo este livro eu poderia tornar um pouco mais fácil a vida daqueles que irão para Sandholm depois de mim. Se jornalismo ou trabalho literário, eu só posso dizer que eu continuo fazendo o que sempre fiz: eu tento usar minha pena como um instrumento para fazer este mundo um pouco melhor. Seguindo as pegadas de Kafka, eu considero que “um livro deve ser um quebra-gelo no mar que se encontra congelado dentro de nós”.

VMC - Diga-no um pouco sobre a recepção do seu livro na sociedade dinamarquesa.

DY - Eu tive meu debut com este livro na Gyldendal, a maior editora da Escandinávia. Inesperadamente, para mim e para meus editores, o livro foi extremamente bem recebido. Foi um besteseller imeditado (a primeira edição esgotou em 3 semanas) e um dos livros mais veementemente debatidos no ano. Criticamente aclamado o livro foi considerado com um “abre olhos”. O livro deu grande impulso na criação de movimentos sociais e organizações para proteger os direitos dos refugiados e estrangeiros. Estes grupos e movimentos estão hoje interferindo ativamente na política, tentando influenciar o clima político do país. Pessoalmente eu recebi e ainda recebo muitas letras de leitores. Muitos escrevem que vêem o livro como um contundente chacoalhar na sociedade e que eles acreditam que isso fará uma grande diferença no futuro.

VMC - Seu livro está muito próximo de uma literatura com uma sólida tradição no ocidente, uma combinação de memórias de perseguição, exílio e expatriação. Na Europa a longa lista de memórias do Holocausto é um bom exemplo. No Brasil temos as memórias da Ditadura Militar. Você considera que seu livro também faz parte deste gênero de literatura? Se sim, nós temos aqui um ponto particular e interessante, pois se tratam de memórias do presente e não do passado.

DY - Por um lado, sim, meu livro pode ser visto como uma continuação da tradição das memórias das sociedades totalitárias. Os modernos regimes da Ásia Central não são muito diferentes das ditaduras que vigoraram na América Latina. Mesmo pessoas no Brasil podem reconhecer-se e reconhecer os seus sentimentos em minha história. Por outro lado, o livro é único porque mostra o que acontece com um indivíduo que se torna um refugiado e busca por proteção na Europa de hoje. Este livro revela a dupla moral da política européia. É uma chamada de atenção para as ricas sociedades ocidentais.

Você deve se lembrar que a convenção das Nações Unidas de Genebra foi formada em 1951. ela foi formada com o propósito de salvar a vida de millhões de europeus que haviam fugido do regime nazista e da devastação causada pela segunda guerra mundial. Somente 60 anos se passaram, o mundo não mudou tanto. Ainda há ditaduras e guerras no mundo. Ainda há pessoas que necessitam de proteção internacional. Os problemas são os mesmos que em 1951 quando a convenção para os refugiados foi formada. O que mudou foi a geografia. Hoje, a maioria dos refugiados não são do ocidente, mas do oriente. Mas o que aconteceu com a Dinamarca e o restante da Europa? Eles se tornaram ricos, no nível material, nos últimos 50 anos, mas se tornaram pobres no nível humanitário. Muitos dos políticos da Europa hoje praticamente se imunizaram contra a suspeita de que seus países poderiam exercer alguma forma de mal. Agora eles são carrascos de um sistema de asilos. Pessoas que vieram ao país em busca de proteção descobrem subitamente que eles estão em posição de reféns.

VMC - Uma última questão: quais são suas perspectivas como escritora agora? Você está planejando ou já trabalhando em outros livros? O que Dina aprendeu com Sandholm?

DY - Sim, estou trabalhando em meu segundo livro, um romance documental que tem como título “não me chame de vítima”. Ele será publicado pela Gyldendal em maio de 2011. É um drama psicológico sobre pessoas com um
espírito incrivelmente forte, mas também sobre um inferno criado por pessoas. É um drama político sobre tortura sob custódia policial como um instrumento de uma guerra contra o terrorismo e o terrorismo como um instrumento e reação ao terror do estado.

É um drama humano, sobre sobrevivência e sobre como salvar a humanidade que há em nós quando nada mais resta. É um drama familiar sobre como não matar o presente quando a alma está escravizada pelo passado. É um drama existencial sobre o longo caminho até a justiça. E por fim, é uma evidência sobre quão terríveis e quão belas podem ser as pessoas.

Eu creio que este livro pode ser relevante para a sociedade brasileira. Ele fala sobre a vida de sobreviventes de tortura que estão buscando uma maneira de recobrar-se de seus traumas e também um sentido na vida buscando por justiça. Mas, existe justiça? É possível encontrá-la por meios legais? E, o que acontece se não for possível? Eu creio que é uma questão muito relevante para brasileiros!

Quais são minhas perspectivas como escritora agora? Bem, nunca foi fácil viver e escrever no exílio, mas eu não sou nem a primeira nem seria a última que tem que encarar esta condição. Muitos outros autores – de Sêneca, Madame de Stal e Victor Hugo, até Nabokov, Iosif Brodsky e Solshenitsin – experimentaram a vida no exílio. De um lado se sente como uma punição, pois você está longe de sua língua e de sua audiência, por outro lado, o exílio representa o escapar para algo melhor. Brodsky escreveu que da tirania você só pode se exilar na democracia. Sob um terceiro ponto de vista pode-se dizer que o exílio é também uma condição de criatividade. Uma sétima fonte de originalidade. O tempo to go solo. Quando você foi arrancado das raízes tudo o que pode fazer é viver no ar...

Aliás, visto por esse ângulo, a literatura de exílio não parece ser um refúgio do mundo. A literatura está mais próxima do mundo do que o próprio mundo e mais profundamente enraizado no mundo do que o próprio mundo quando não está vinculada às algemas da nação. É uma chegada a um reino diferente - além de etnias, estados e fronteiras. É como um pássaro, para o qual todo o céu é seu.